segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Do que eu falo quando eu falo de corrida

            As experiências do cotidiano dizem respeito a algumas questões bastante fundamentais ligadas ao eu e à identidade, mas também envolvem uma multiplicidade de mudanças e adaptações na vida cotidiana. Algumas dessas mudanças estão documentadas no livro “Do que eu falo quando eu falo de corrida”(2010) de autoria de Haruki Murakami. O livro trata de dois tipos de vida que o autor levou, seja como romancista, seja como pessoa comum, ao longo dos últimos vinte e cinco.
            Em 1982, Haruki Murakami decidiu vender seu bar de jazz em Tóquio para se dedicar à escrita. Nesse mesmo período, começou a correr para se manter em forma. Um ano mais tarde, ele completou sozinho, o trajeto entre Atenas e a cidade de Maratona, na Grécia, e viu que estava no caminho certo para se tornar um corredor de longas distâncias;
            O prefácio é genial, o título traduz; “Sofrer é opcional”. Por mais mundana que uma ação possa parecer, fique nela tempo suficiente e ela se tornará um ato contemplativo, meditativo, até. Apesar do fato de que o autor jamais chamaria parte alguma deste livro de filosofia propriamente dita, ele realmente contém certa quantidade do que pode ser rotulado como lições de vida. Talvez não seja grande coisa, mas são lições pessoais, como por exemplo por o corpo efetivamente em movimento, descobrindo, assim que sofrer é opcional.
            O livro é bem humorado, tanto para os leitores do autor quanto para as inúmeras pessoas que encontram satisfação semelhante nas corridas. O que se passa na cabeça da pessoa para fazer uma coisa dessas com ela mesma?

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Luis Eduardo Soares

Este homem deve ser mais ouvido. Mais uma vez o ciclo se repete na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises.
Reproduzo aqui a postagem de Luis Eduardo Soares ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A crise no Rio e o pastiche midiático


Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.

Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:

(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.

(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?

(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.

Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:

(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?

Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?

Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.

A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.

A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.

(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?

Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.

Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.

Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.

Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.

(c) O Exército deveria participar?

Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.

E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.

(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?

Claro. Mais uma vez.

(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social --um dos melhores gestores do país--, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.

O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –as bandas podres das polícias-- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?

As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.

E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.

Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.

O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.

Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

Postado por Luiz Eduardo Soares às 21:08
 
Envio o Link para a entrevista com a mesma tônica da postagem no programa Roda Viva de ontem 29 de novembro de 2010.http://www.tvcultura.com.br/rodaviva/

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A corrida eleitoral em 1 minuto

Blá, Blá, Blá
Nada fugiu do script, todos os cuidados foram tomados para que o debate eleitoral de 2010 não saísse dos trilhos.
Aparentemente a eleição presidencial de 2010 não teve grande significado, posto que o programa dos partidos que disputaram a Presidência da República, com maiores chances de vitória, são muito semelhantes. Tudo não passa, portanto do âmbito da luta entre facções de um mesmo bloco político. Em outras palavras Plinianas, uma eleição tranquila para o estabilishment burguês.
Para os próximos quatro anos, o que esperar?
Segundo Camões - "não tem perdão o capitão que devendo prever, não previu" - todos os cuidados estão sendo tomados para que o debate não aconteça nessas eleições de 2010.
Sob as determinações de uma lei eleitoral restritiva e dominada pelo poder econômico, a campanha obedece um "script" rigoroso, que prescreve unicamente a possibilidade de "discussões técnicas" entre os candidatos: ou seja, um confronto de proposta técnica com proposta técnica, a fim de que os elitores escolham a que mais lhe agrade.
Desse modo, os verdadeiros problemas do país e suas respectivas soluções não virão à tona no processo elitoral, a fim de não fornecer material combustível para a oposição de esquerda, caso venha a haver turbulência econômica em 2011
Dois exemplos podem esclarecer bem a afirmação que está sendo feita: de acordo com o script, a discussão relativa à exploração do Pré-Sal circuscreve-se à alternativa "técnica" -  exploração pela Petrobras ou por uma nova empresa a ser criada.
A colocação do problema nesses termos retira do debate as verdadeiras questões que a descoberta do Pré-Sal desperta, como por exemplo: convém contrair uma enorme dívida externa e provocar um inevitável grau de poluição do nosso mar territorial, para extrair um recurso cuja necessidade, a médio e longo prazos, não será devidamente estabelecida?
Quanta bobagem!
A elição mais chata de todos os tempos!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Doutor Podre

Com todos os elogios que o título deste post possa ter e sem ser piegas. Escrevo sobre uma banda clássica de punk rock nacional bem podre e seu vocalista doutor.
A banda Garotos Podres foi Influenciada pelas banda de punk rock do final dos anos 70 e início dos anos 80, o grupo foi formado em 1982 na cidade de Maúa, que é uma das cidades que compõem a região do Grande ABC em São Paulo. Naquela época o Brasil se encontrava no auge do movimento punk no Brasil, e várias bandas surgiram principalmente nos grandes centros urbanos.

Sua primeira apresentação aconteceu em 1983, na cidade de Santo André num movimento que reuniu vários grupos de vários estilos musicais em prol do Fundo de Greve dos Metalúrgicos do ABC, dai pra frente começaram a participar de vários eventos pela região.

link clip da música "Garoto Podre": http://www.youtube.com/watch?v=BjETnkXh82Y

Saindo de uma história para entrar em outra. Encaminho o resumo do livro do vocalista Mao dos Garotos Podres que se apresentou ontem em Ribeirão Preto.

Livro: "A Revolução Cubana e a questão nacional." Que narra quase 100 anos da história de Cuba.


link entrevista com Máo sobre a renúncia de Fidel: http://www.youtube.com/watch?v=Nqu8YiJaNUU

Nos últimos anos, a imprensa brasileira e os trabalhos acadêmicos não têm poupado munição para atacar intermitentemente Fidel Castro, a Revolução Cubana e suas conquistas. A informação que nos chega diariamente via jornais, televisão, revistas e teses defendidas nas universidades, sempre objetiva pintar, para Cuba, um cenário pouco pior do que o do inferno no imaginário medieval. Cada artigo que lemos pode ser tranqüilamente ilustrado com uma figura do Presidente cubano com rabo e chifres, empurrando para o fogo eterno os pobres pecadores desertados do Regime. Muito se fala sobre Cuba, muito se escreve sobre Cuba, muito se condena e se exalta Cuba, mas muito, muito poucos se dedicam a estudar a fundo a História de Cuba.
Na contramão dessa tendência, A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868-1963), tese de Doutorado defendida no Departamento de História Econômica da USP e lançado em livro neste agosto de 2007, traz ao leitor um estudo profundo e apaixonado dos principais acontecimentos históricos que marcaram a Ilha por quase 100 anos anteriores à Revolução. Com riqueza de detalhes são narrados no livro fatos ignorados pelo grande público, tais como a Primeira e a Segunda Guerras de Independência, as constantes intervenções militares e políticas dos EUA, a contradição crescente entre a burguesia açucareira - tão subserviente ao capital estrangeiro - e os trabalhadores cubanos - tão ávidos por liberdade.

Além da abundância de informação sobre a História da Ilha, algo difícil de se encontrar na bibliografia até hoje publicada no Brasil, outro elemento que torna o livro precioso para o leitor comum é a forma como o historiador relaciona os principais episódios históricos de Cuba com a trajetória de vários de seus heróis. Impossível não se emocionar com a tenacidade do poeta José Martí que, apesar do corpo franzino, fez questão de lutar no campo de batalha da Segunda Guerra de Independência; ou com a morte de Antonio Guiteras, assassinado após uma covarde delação; ou ainda com os sempre eloqüentes discursos de Fidel Castro e sua brava atuação frente ao grupo de guerrilheiros que até hoje encanta os jovens revolucionários de toda a América Latina. No livro, que pode ser comparado a um verdadeiro poema épico, o herói individualizado aos poucos cede lugar ao povo cubano que, em Playa Girón e nas Brigadas de Alfabetização se transforma, como um todo, no maior e mais honrado herói de sua pátria.

Ao contrário de outras teses aprovadas pela academia, que tanto se orgulham de cultivar uma linguagem hermética, para não dizer pedante, o autor de A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868-1963) busca o entendimento do leitor e sai vitorioso de seu intento. Com exceção do primeiro capítulo, no qual é apresentado um panorama das diferentes posições sobre a questão nacional entre os marxistas, o restante do livro é de fácil leitura para o grande público, pois possui ritmo e fluência elogiáveis.

Pela coragem de se colocar ao lado de Cuba - e não de Miami - neste momento crucial da História da Ilha, pela riqueza de detalhes, pela profundidade da pesquisa e pela linguagem elaborada, porém acessível, o livro A Revolução Cubana e a Questão Nacional (1868-1963), sem dúvida, é obra de leitura obrigatória para todos os que se interessem por aquela fascinante Ilha do Caribe.

Cibele Vieira Machado é professora de português e francês, licenciada em Letras pela USP. E-mail: cibelemachado@gmail.com

sábado, 27 de março de 2010

As desventuras da educação no ensino superior e na avaliação da aprendizagem.

*"A Universidade sem condição"
Jacques Derrida
Sobre as desventuras do Barão que em cima do seu cavalo branco puxa os seus próprios cabelos para sair da areia movediça. É amplamente aceito que o acesso à educação superior ajuda a quebrar o ciclo de pobreza intragerações e permite que comunidades marginalizadas participem mais intensamente do desenvolvimento. Na economia globalizada e impulsionada pela informação da atualidade, investimentos igualitários em capital humano são ainda mais urgentes. Entretanto, no Brasil persistem desigualdades profundamente enraizadas nas instituições e na história colonial, incluindo a dominação das populações indígenas e a escravidão, limitando a oportunidade educacional. Fantasia ou realidade, a educação proporciona a mudança permanentemente positiva e dialética da sociedade.
A pedagogia tradicional, que destaca a importância das medidas de dimensões ou aspectos quantificáveis, considera a importância da periodicidade do processo avaliativo e o registro de seus resultados especialmente nos momentos de término de unidades, séries, etc. Neste sentido, a avaliação assume um caráter classificatório.
De fato, como denotam os próprios termos, medir implica em mensurar e avaliar implica em valorar ou valorizar. A medição lida com a quantidade, a avaliação com a qualidade. A prática tradicional tem sido medir, ou seja, atribuir nota, enquanto o processo avaliativo abrange muito mais que números ou percentuais de aproveitamento.

Se a educação não é transformadora, o ensino passa a ser desumano e desvalorizado. A humanidade roubada por um tipo de técnica, inimiga da política e análise social. Ao não alcançarem, na reflexão e na ação comum, este saber da realidade, não se descobre como reformulador permanente da educação.

Deste modo, a presença dos oprimidos na busca de sua libertação, mais que pseudo-participação, é o que deve ser: engajamento.


Duas frases para refletir: “Todos querem fazer faculdade.” E “As profissões devem possuir um tipo de status.”

Se os papéis da avaliação e do ensino superior passam a ser uma prescrição. Toda prescrição é a imposição da opção de uma consciência a outra. Daí, o sentido alienador das prescrições que transformam a consciência recebedora chamando de consciência ‘hospedeira’ da consciência opressora.

O comportamento prescrito passa a fazer parte da própria constituição social de prestação as regras e diretrizes de provas e sistemas educacionais conservadores pautados em uma educação voltada exclusivamente para o mercado de trabalho “qualificado”.


Um tipo de via de duas mãos. Por um lado, o comportamento do trabalhador passa a ser um comportamento prescrito (“necessidade do diploma”). Baseado na quantidade de títulos e cursos para manter o emprego e não na qualidade do ensino conquistado para o crescimento cultural e educacional pessoal.


De outro lado, a desvalorização pessoal ou a perda do status de determinadas profissões não qualificadas por uma educação formalizada. A profissão do carpinteiro ou da empregada doméstica ficam caracterizados assim como um “emprego menor”. Daí a desvalorização da pessoa.


O papel do ensino superior neste caso é a sua própria crítica, do modelo padronizado da educação formal. Para se alcançar o emprego estável esta crítica não vem ao caso.


Meros fatores técnicos de aprendizagem que não levam o aluno a conquistar conhecimento transformador para a sua vida. Educador e educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros. Busca esperançosa também.


Poderá dizer-se que casos como estes já não sucedem nas escolas brasileiras. Se realmente estes ocorrem, continua, contudo, preponderantemente, o caráter narrador que estamos criticando.


Um processo avaliativo no entanto não deve ser medido ou mensurado por classificações inflexíveis, e sim pelo processo dinâmico da vida.


Na concepção da noção fantasiosa do professor dominador que estamos criticando, para a qual a educação é o ato de depositar, de transferir, de transmitir valores e conhecimentos, não se verifica nem pode verificar-se a superação. Pelo contrário, refletindo a sociedade conservadora, sendo dimensão da “cultura do silêncio”, a educação baseada na transferência conhecimento mantêm e estimula a contradição.


Os papéis do ensino superior e da avaliação da aprendizagem passam a distorcer o caráter social da interação entre aluno e professor. Da mesma forma que o aluno tem percepções diferenciadas, inteligências e habilidades mais desenvolvidos em alguns pontos e menos em outros. O professor também apresenta a mesma deficiência, estando mais desenvolvido em algumas inteligência e habilidades e menos em outras.


Desmistificar o poder do professor para a interação com o aluno; a relação pessoal é a condição da eficácia educacional da exigência de fluxo de informação de baixo para cima e do reconhecimento da autonomia. O empurra-empurra entre o desenvolvimento da educação moderna e o currículo centrado na visão educacional tradicional, porém, não é um jogo de soma zero. A instituição de ensino pode intensificar o desenvolvimento do ensino, graças a abordagem da comunicação interdisciplinar ou à criação de maior legitimidade.


O professor atual é uma defesa política do domínio do conhecimento , e não se situa na velha oposição entre dominador e empregado. Ele opera através do fornecimento de condições materiais e estruturas de organização, para as decisões de aprendizado da vida tomadas por indivíduos e grupos na ordem social mais ampla. Esta visão depende da criação de confiança ativa nas instituições governamentais e agências vinculadas.


Contrariamente talvez às aparências, a política de educação é atualmente o meio principal para abordagem eficaz dos problemas da pobreza e da exclusão social.


Buscamos no ensino superior e na avaliação de aprendizagem não só nossa profissionalização, mas um espaço que nos enriqueça enquanto mulheres e homens. Não aceitamos uma lógica que nos segrega em nossas. Não aceitando uma lógica que nos segrega em nossas vidas individuais, nos restringe a sala de aula, a biblioteca e a nossa casa. Devemos afirmar a universidade como um pólo para o fomento da discussão política plural e que pense soluções para os problemas sociais, para a integração das pessoas e para o fomento da discussão em torno de uma produção cultural que não a massificada e comercial, mas que abranja a diversidade das idéias e que seja crítica.

O que não significa que não haja saída. Pois o que também nos ensina Foucault é que nem o poder é total, nem o saber é unilateral: onde há poder e saber há resistência. Daí por que, procuramos contribuir para o grande desafio, que ainda hoje enfrentamos: produzir conhecimentos capazes de insurgirem contra a dominação da educação tradicional que os próprios saberes sobre o homem ajudaram a criar e a aperfeiçoar.

Resta a pergunta: A educação básica estaria produzindo equidade? A resposta mais correta é sim e não. Sim quando amplia o acesso de milhões à educação básica, amplia a cobertura educacional, aumenta a proporção de brasileiros com possibilidades de se graduarem e conquistarem um melhor posição na sociedade. Não, quando ainda persistem diferenças de acesso em função de critério que não o social educacional, mas em razão de obstáculos decorrentes da política e da gestão do sistema.


A busca da equidade deverá ser permanente, talvez por isso seja a mais sensível. Um trabalho permanente de engenharia política, de arte da gestão e de sabedoria educacional. Um projeto somente sustentável em um contexto sócio-histórico em que a educação das pessoas seja o bem mais valioso, entre todos. Um projeto a ser sustentado para além das evidências concretas de cada época, um projeto, enganchado na teimosia, bem humana, de que a vida pode sempre melhorar, ainda que nem sempre isso seja uma evidência palpável.


Segundo Paulo Freire (1983), a “situação-limite” do subdesenvolvimento, ao qual está ligado o problema da dependência, é a fundamental característica do Brasil. A tarefa de superar tal situação, que é uma totalidade, por outra, a do desenvolvimento, é, por sua vez, o imperativo básico do Brasil.


Se contentarmos por exemplo com a instrução das crianças podermos criar uma sociedade na qual as desigualdades se fundarão sobre os saberes.Segundo Condorcet, o deputado da região francesa de Aisne a quem geralmente é atribuída a paternidade do termo "educação popular, propunha a continuidade da instrução dos cidadãos "pela vida toda".


Sem a continuidade da instrução. "O gênero humano continuará dividido em duas classes: a dos homens que usam a razão e a dos homens que crêem, a dos senhores e a dos escravos".


Quais seriam as conseqüências da sensibilidade da educação básica, do ponto de vista da Universidade?


Para alcançar o papel transformador, aparentemente tão distante, devemos começar pela democratização do acesso, que hoje é restrito a lógica do vestibular e repete-se a cada ano com uma violência contra milhares de jovens, em sua maioria pobres e negros, aos quais é negado o direito a educação. Ou seja, começando de baixo da pirâmide educacional, a educação básica fica comprometida com as avaliações de aprendizagem e o ensino superior fica marcado por uma apatia geral dos seus estudantes.


É realidade acreditar que o ensino superior alavanca o desenvolvimento de países emergentes.


A Universidade e o sistema educacional como um todo, esteve sempre ligado à construção do projeto nacional quase sempre voltado para a formação de elites. Nos últimos vinte anos, não só essa idéia de projeto de país passou a ser atacada, mas também as políticas sociais. Termos como eficiência e competição passaram a fazer parte do discurso relacionado às política públicas voltadas para a Universidade.


Vivemos um tempo em que muitas são as barreiras que se colocam como obstáculo à ação coletiva: o individualismo, o autoritarismo, a lógica do mercado e da competição permeiam todos os momentos e espaços da vida e disto a universidade não se ausenta desde a falta de democracia presente na estrutura de poder até a política retirada dos espaços estudantis. Diante de tudo isso, uma construção coletiva, baseada nos debates e no respeito a sustentação de um sistema educacional universal e progressivamente democrático. Juntamente com atores políticos, econômicos, sociais e culturais. Um debate plural portanto, forma uma possível ação de liberdade numa realidade efetiva, que alavanque o país emergente.


Por todo o autoritarismo vivido na sociedade e discutido nos papéis do ensino superior e na avaliação de aprendizagem. Talvez estejamos vivendo um momento em que a especialização da educação retoma a preocupação com processos globais, em que mesmo os trabalhos pontuais como a avaliação, valorizam a conexão com o conjunto econômico, político e social. Nesse quesito a educação é substancial e também incômoda para a própria base econômica de desenvolvimento do país.


Um incômodo quase óbvio que expressa a preocupação da sociedade brasileira - uma das mais desiguais do mundo - em romper com essa realidade. Posso dizer que a desigualdade é uma das questões desse conjunto que deixam inquietos os cientistas sociais brasileiros.

Uma análise mais ampla da sociedade em que vivemos é essencial para podermos compreender onde se inserem os problemas pelos quais passam o ensino superior para conquistarmos mudanças.


Professores e alunos não estão desligados do que acontece fora da Universidade, ao contrário, reproduzem as contradições da sociedade em que vivemos, marcada por uma imensa desigualdade social. Devemos partir de nossos problemas cotidianos e então entender como estes estão ligado as questões maiores.


“A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca. Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem.” (Freire, 1983)

sábado, 12 de dezembro de 2009

O social, um laboratório a céu aberto 2.

A importância dos núcleos e a formação dos núcleos cebianos: como difusão democrática e social.
O estímulo a formação dos núcleos foi destacado na reunião do dia 09/12. Resgatando o histórico da formação dos núcleos pelo Brasil. A estratégia dos núcleos funciona no sentido de formar uma associação forte com o objetivo de reconstruir a Reforma Sanitária sob novas bases. Esta estratégia implica em desafios. Na década de 70, esta estrutura era mais flexível e atualmente esta posição provoca tensionamento. A busca do cebes já penetra a dinâmica de poder no interior do Estado. Será que existe o sentido realmente transformador de conceber e fazer da saúde o fundamento reconciliador da unidade perdida da totalidade de uma transformação setorial com ressonância estrutural sobre o conjunto social?
Posições, atribuições e ações, são perspectivas de busca de mediações, dos atores, grupos de interesses organizados, deslocando-se a clássica explicação dos processos políticos calcada na teoria da luta de classes para os processos políticos e decisórios, seja nas instâncias das estruturas estatais, seja ainda na dispersão do poder entre os distintos grupos societários.
“No caso brasileiro, o movimento nacional pela reforma sanitária ocorrido durante a década de 1980 exemplifica bem a importância dos mediadores, ao mesmo tempo que a relativiza. O movimento teve como ator hegemônico um determinado grupo de sanitaristas oriundo de agências estatais e do meio acadêmico, que em uma conjuntura política específica – a redemocratização, com a crítica disseminada ao modelo de políticas públicas vigente nos anos 1970 - e a realização da Assembléia Nacional Constituinte, conseguiu transformar seu projeto político em referencial setorial. Esse referencial tinha caráter fortemente estatista e redistributivo, e apesar de consagrado na nova Constituição, não chegou a se transformar em intervenção concreta nos anos subseqüentes. Estes anos foram marcados por uma guinada conservadora e por uma hegemonia do neoliberalismo no campo do referencial global, mas também por uma intensa mobilização dos capitais contratistas e conveniados com a prestação dos serviços de responsabilidade do Estado, no caso, hospitais privados, fabricantes de equipamentos e medicamentos e empresas de saúde e previdência privada. Como resultado, a política de saúde definida pela Reforma Sanitária não chegou a ser implementada, apesar de se transformar em política oficial proposta pelo Estado.”
Trabalhar em cima da Reforma Sanitária para hoje é ter a consciência de um "sofrimento institucional" (termo do professor Marcos Aurélio Nogueira) por parte da sociedade civil organizada. Ou o próprio declínio do homem público observado por Richard Sennett. As pessoas buscam o menor sofrimento nas suas relações sociais. E principalmente com as instituições. Mais um destaque dado na reunião do dia 09/12. Precisamos além de nos colocarmos a tarefa do desenvolvimento político, uma aproximação com o resgate do homem público e do espaço público com satisfação que não faça dos movimentos organizações que se bastem em si mesmas. Mas que sejam anarquicas perante a estaganção diante do Estado e como Estado.

link para o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde: http://www.cebes.org.br/

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O social, um laboratório a céu aberto.

Primeiro o receituário :
Modernidade radicalizada
Efeitos políticos e organizacionais
Modernidade periférica radicalizada
Insegurança estrutural e dilemas institucionais

Depois o Patrimônio Líquido:

No curto prazo, talvez não dê mesmo para esperar respostas muito confiáveis das instituições – dos partidos, dos governos, dos órgãos públicos, das igrejas, dos sistemas. Mas podemos aproveitar as maiores margens de liberdade e politizar as novas formas sociais, com seus personagens seus conflitos e suas contradições.

Daí podemos observar os diversos mecanismos de participação no Brasil, a ação dos atores sociais latino-americanos em uma modernidade líquida e ao mesmo tempo sólida. É óbvia a influência que as estruturas tradicionalizadas possuem sobre a formação de nossas compreensões e perspectivas

Sem sobressaltos e rupturas

Tudo paira no ar. “A literatura sociológica reconhece que a atual etapa de transição revolucionária não se faz acompanhar por revoluções: uma modificação profunda abala quase imperceptivelmente os alicerces do que está instituído, do que se pensa e se pratica. O próprio capitalismo conhece dinâmica semelhante: domina por toda parte, está generalizado e turbinado, parece ter se convertido em objeto de desejo dos povos, mas de modo algum se pacificou. Radicalizou-se como tal, passando a enfrentar novas tensões e contradições. A luta contra ele, porém segue estradas diferentes, muitas das quais dantes desconhecidas, é conduzida por sujeitos de novo tipo (não mais as classes ou os movimentos, mas os indivíduos e as multidões) e segue agendas multifacetadas, nas quais os velhos temas – o fim da exploração, a justiça social, a distribuição de renda, o controle da propriedade, a regulação do mercado – têm seu peso relativo redefinido e passam a ter a companhia de outros, bem mais específicos: direitos, identidade, reconhecimento, individualidade, privacidade, prazer, tempo livre e consumo.
Culminando e:

Viabilizando a Participação em Conselhos de Política Pública Municipais: arcabouço institucional, organização do movimento popular e policy communities

Não pode haver “Estado” democrático sem cidadania ativa e sem participação, ou seja, sem “sociedade civil” organizada. Dirigentes democráticos distinguem-se pelo respeito aos direitos, aos interesses e à participação dos “dirigidos”. Por isso, o melhor terreno para o desencadeamento de dinâmicas de emancipação em condições de modernidade radicalizada não é o Estado em sentido estrito (ou seja, o mundo do governo, da administração ou do poder), mas a sociedade civil, quer dizer, a malha de movimentos, agregações e associações com as quais interesses e indivíduos se organizam e buscam se afirmar perante os demais, diante do Estado e como Estado. O social, porém, não basta a si próprio: na ausência de um Estado, desvincula-se da idéia republicana, ou seja, converte-se em espaço de interesses exacerbados, não de direitos